O MODERNISMO RETROGRADO

Publicado: junho 13, 2010 em Diversos

Obs.: Não sei se todos que passam por aqui sabem que tambem sou formado em Arquitetura & Urbanismo, talvez mais pelo lado histórico da profissão, fui atraído e justamente esse contexto me faz querer algumas vezes escrever sobre minhas impressões com o entorno; O texto que se segue foi escrito em setembro do ano passado, quando ainda morava-mos em Brasília, aprendi a gostar e admirar muito aquela cidade e te-lá como meu lar e talvez por esse sentimento surgiram inquietações no meu espirito ante a alguns descasos ocorridos:

O MODERNISMO RETROGRADO

Para quem circula pelas largas alamedas e avenidas grandiosas da suntuosa Brasília noturna, cortada por seus monumentais eixos, iluminados, que nos levam a visão quase que constrangedora da imposição de Marcos Monumentais, Palácios soberanos, Ministérios e seus anexos, não consegue visualizar o contrastante submundo de uma cidade satélite nas divisas para o Planalto Central.

“…Brasília 50 Anos em 5”, o promissor slogan adotado pela campanha de Juscelino, para construção da nova e moderna capital do Brasil, serviu como impulso para uma revolução orçamentária, tecnológica, construtivista e social para o nosso pais. Uma revolução que alcançou proporções monumentais ecoando por todo o mundo, infincada no semi-árido brasileiro, trouxe um avanço para toda a região, moldou um novo tipo de “êxodo” inverso para dentro do pais e consagrou uma cidade moderna à Patrimônio da humanidade.

Baseado e inspirado por seu mentor da juventude, o já senhor Oscar Niemyer trouxe também das fontes de Lecobusier o monumentalismo que nos rodeia em Brasília. Temos de reconhecer o mérito do Arquiteto tupiniquin quando vemos uma cidade repleta de curvas, minimalismos, cores brancas que refletem a luz e o céu de brigadeiro do planalto. Brasília é fundada e marcada por grandes obras arquitetônicas que mais parecem objetos de arte em escala não-humana, com espaços que só permitem uma circulação completa por meio de carro ou algum tipo de automóvel. Brasília é grande em sua essência, iluminada em seus traços, emblemática em seus moldes e agradável aos urbanistas de espírito.

Lucio Costa, o engenheiro responsável pela concepção da nova cidade, ficou encarregado do traçado que por vezes é tido por alguns estudiosos como um “pássaro” ou um “avião”, mas basicamente remete a uma cruz, onde dois grandes eixos se cruzam criando uma cidade as margens dos mesmos. Setorizada e dividida em Super-Quadras, que abrigam áreas de moradia, comercio, hotéis e serviços; Brasília é uma cidade soberana em suas soluções, sendo referencial de circulação de automóveis para todo o mundo, com suas pistas, eixos, ausência de esquinas e cruzamentos diretos, o mínimo de semáforos possíveis e velocidades mínimas bem acima da media das cidades brasileiras.

Em contra-ponto vemos criticas fundamentadas nas necessidades não pensadas na época do desenho da cidade. Brasília previa uma grande circulação de carros, mas não foi capaz de prever estacionamento para os mesmos. Brasília criou Ministérios, anexos, tribunais, edifícios empresariais e não pensou em vagas de garagem para essa demanda de trabalhadores motorizados. Brasília previa trazer pessoas de todo o pais para concretizar a nova capital, mas não previa que essas pessoas fundariam cidades/subúrbios que teriam de ser de alguma forma ligada ao Plano-Piloto, ou seja não pensaram numa malha viária ou ferroviária que comportassem um transporte de massa funcional e dinâmico.

A escala monumental impede as pessoas de desfrutar a grandiosidade da sua própria cidade, pois essa grandiosidade é em sua essência algo inatingível para seres humanos que não são capazes por limitações obvias de circularem num sol diário de 40 graus em espaços coberto por asfalto, grandes pavimentações sem nenhum tipo de proteção natural. O que gerou a plantação de arvores por boa parte do plano, com um pequeno erro: “são árvores frutíferas”, ou seja, arvores que atraem todo tipo de insetos e animais como morcegos; Um problema gigantesco para a cidade que durante o dia é assolada por uma praga do mesmo gênero, as pombas, trazidas para cá com o aval da nossa saudosa primeira dama Dona Sara (esposa de Juscelino).

As criticas não param no nível de problemas gerado por demandas naturais, quando pensamos numa cidade que hoje já esta a beira de compreender a segunda maior economia de consumo do pais, devemos prever as necessidades de equipamentos que vão alem do transporte publico, mas escolas, hospitais, segurança publica, laser e etc, devem estar em voga no pensamento dos governantes, arquitetos e pensadores responsáveis por uma cidade agradável e realmente monumental. Brasília hoje não é somente lembrada por sua marca soberana e monumental na sua arquitetura, mas sim também por espelhar um reflexo de desigualdade social onde a classe alta se esconde na beira dos lagos e nos novos setores sudoeste e noroeste, expurgando a população que serve essa sociedade, para os cantos do Distrito Federal e arredores.

Hoje conhecemos nossos problemas, hoje conhecemos os defeitos que Brasília comporta a consciência disso já é um caminho para buscarmos soluções, vemos os governantes empenhados na criação de novas linhas de circulação, implantando projetos de circulação sobre trilhos, mais rápidos, e aumento da frota de veículos de transporte publico. Mas mais que isso, Brasília precisa de políticas de descentralização de suas demandas, que podem sair do Plano-Piloto. Brasília cresceu! Não estamos mais na década de 70, onde se passava um carro a cada 10 minutos no Eixo-Monumental, essa cultura ainda existe na maioria dos cidadãos egoístas do transito mal-educado que nos rodeia por aqui. A mentalidade deve ser de que Brasília é uma cidade grande, com problemas tão grandes quanto sua escala arquitetônica deve o é.

Brasília foi feita em 5 anos o que se levaria 50 anos, hoje Brasília tem a população que por antigos cálculos só deveria ter em 2050; A necessidade de se procurar soluções criativas, funcionais e rápidas é pra agora, urgente, ou em mais 40 anos enfrentaremos problemas piores do que cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, com apenas um diferencial: “O Modernismo como pano de fundo para a desordem”.

Brasilia, Setembro de 2009

Murilo Scarpellini Vieira

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comentários
  1. Michelly disse:

    Lembrei de uma música:

    Desperta, Brasília, para um novo tempo
    Enquanto é tempo você deve entender
    Que o sol que brilha sobre os Três Poderes
    Foi criação de um Poder bem maior que o teu

    Do esoterismo querem que sejas a Capital
    Dizem que este lugar tem algo sobrenatural
    Mas não será este lugar ou sua arquitetura
    Que dirá de quem és, é o que vamos cantar…

    Brasília é de Jesus
    Povo de Deus, assim vamos decretar
    Uma cidade é seu povo
    E este povo é de Deus
    Brasília, também, assim será.

    De que vale o amanhecer com medo da noite?
    Ou jogar flores no Lago Paranoá?
    Se a vida continua e sem perfume
    E tantos templos não podem te ajudar

    Em sua Catedral, os anjos são de pedra
    Pedra fria, como é a vida sem Jesus
    O seu futuro não está nas cartas, nem nos búzios
    Cidade céu, só em Cristo encontrarás a luz

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